Barcelona pode restaurar sua fé na humanidade

As criações de Gaudí encantam religiosos e descrentes: veja Barcelona pelos olhos de Marcelo e prepare as malas!

Barcelona pode restaurar sua fé na humanidade

Bem-vindo a Barcelona! Uma terra encantadora, com igrejas que até os mais descrentes turistas contemplam. Marcelo Dunlop visitou a cidades e voltou de lá com sua fé na humanidade renovada.

Leia o depoimento de Marcelo e prepare-se: você vai terminar de ler pronto para fazer as malas!

Barcelona

Um giro pela Espanha pode se tornar uma verdadeira tourada para o viajante, se não for encarada com o mínimo de estilo e conhecimento. Com tantas atrações pela frente, o recém-chegado volta e meia se vê correndo de um lado para o outro, o tempo curto bufando no cangote feito um touro bravo, e tome de rebolar para aproveitar tudo. Sem falar nos olés que o turista leva ao escolher onde comer, furadas capazes de deixá-lo no vermelho, querendo dar chifradas na mesa ao ver la cuenta.

Em nossas últimas férias por Barcelona, a correria não teve vez. Tudo graças a uma conhecida: a guia chamada Rafaela Mazzini, velha amiga carioca que mudou para a Espanha há dez anos e hoje é uma exímia especialista na arte, arquitetura e gastronomia espanholas.

Não sei de melhor modo de ir à Catalunha e pegar o tempo à unha do que seguindo os passos da Rafa.

Casa Batló

Começamos o tour conhecendo por dentro uma atração obrigatória, perfeita para o dia que começou chuvoso: a Casa Batlló.

Um belo ponto de partida para nosso mergulho no mundo encantado de Gaudí, um visionário com fama de biruta que mudou a cara (e o coração) de Barcelona ao arquitetar casas e parques auto-sustentáveis quando nada disso era moda, no início dos anos 1900.

Nas áreas menos modernas e bem mais antigas da cidade, construções e ruínas de antes de Cristo, as atrações também impressionam. Caso das imensas (porém escondidas) colunas romanas, encontradas por acaso durante obra relativamente recente, magníficas.

Siga o passeio sem ignorar as igrejas, mesmo se você for um turista descrente: não perca a Nossa Senhora gestante, uma das raras imagens da santa grávida, as belas virgens negras e algumas das mais imponentes catedrais da Europa – parte delas sem um pingo de ouro e ostentação, o que nos restaurou a boa fé na humanidade, pelo menos até o fim das férias.

Tapas e Paella

A caminhada deu fome? Entre tapas e queijos, Barcelona pede uma visita a La Bodegueta, taparia clássica perto da Casa Batlló, ou na La Tomaquera, para experimentar os caracóis, aperitivo típico da região.

Se estiver atrás de uma paella, vá ao 7 Portes. Para saborear frutos do mar inesquecíveis, reserve umas horas para a peixaria La Paradeta.

Sagrada Família

Não era minha primeira vez em Barcelona, mas a cidade mudou bastante de dez anos para cá. Hoje é um destino turístico tão procurado que supera Paris em algumas temporadas.

Ao chegarmos diante da Sagrada Família, deu para entender por quê. Para quem havia ido lá dez anos antes, quando a famosa catedral ainda era um (magnífico) canteiro de obras por dentro, a visita à basílica idealizada por Gaudí foi um arrebatamento.

Se por fora, a catedral rende uma aula de história da humanidade memorável, por dentro, onde há uma década perdurava deserto e poeira, ergue-se hoje uma imponente floresta de colunas banhadas de luz por lindos vitrais, com direito a um altar engenhoso.

O espírito cristão se enleva ainda mais quando ficamos sabendo que não há dinheiro público ali, e sim dinheiro do público – isto é, dos ingressos e das contribuições de turistas e locais. Gaudí, um católico amante de ecologia, sabia que não veria a maior de suas obras pronta em vida. Ao confiar o projeto aos seus sucessores, demonstrou que, para ter fé em Deus e nas coisas do lado de lá, é preciso antes uma incansável crença na capacidade dos homens daqui.

Santo Gaudí

De fato, a Sagrada Família só deve ficar totalmente pronta em 2026, com a principal de suas torres quase acariciando as nuvens, mas não espere até lá para vê-la pessoalmente.

Curiosidade: de ex-lelé, Gaudí pode virar santo, graças ao processo de beatificação que segue sob análise no Vaticano. Se depender dos votos dos visitantes da Sagrada Família e do imperdível parque Güell, o arquiteto já estava de asinhas e auréola há tempos.

Futebol

Acabamos não indo ao futebol, já que Messi, Neymar estavam castigando um timeco europeu fora de casa, mas o futebol veio até nós. Flanávamos pelo bairro gótico, enquanto nossa guia nos contava sobre uma valente igrejinha, onde 40 crianças haviam sido covardemente fuziladas por capangas do ditador Franco, o repugnante general que os espanhóis fazem questão de lembrar para que não surja ninguém remotamente parecido.

Estávamos entretidos na história quando de trás de uma árvore surgiu um miguelito esbaforido com três coleguinhas no seu encalço, a bola dominada com habilidade num dos pés. Aparentemente, o portão da igreja onde ainda se veem os buracos das balas de Franco era a trave da peleja, e o guri nem titubeou: preparou o chute, ignorou os turistas diante de sua sagrada baliza, engatilhou e fuzilou, exatamente na minha direção.

O chute veio forte, à meia altura, mas eu estava alerta: levantei um pouco o joelho e desviei, com o lado de fora do pé, a pelota para o outro lado da praça. Antes que os pequenos catalães se desculpassem, arranquei atrás da bola, mas uma rápida tabela entre eles me deixou feito um boi brasileiro perdido na arena. Valentes meninos!

Avalie agora se eu estivesse parado ali emaranhado em mapas, com o nariz enfiado em livros turísticos, já imaginou que bolada? Muchas gracias, Rafa!

Marcelo Dunlop é escritor e, principalmente, leitor. Foi organizador da antologia “Veríssimas” (2016), de Luis Fernando Verissimo. Turista incansável, lamenta não poder viajar mais frequentemente para a melhor cidade do mundo, o Rio de Janeiro. É onde ele mora.

Realize com o LATAM Pass

Com o LATAM Pass, você pode resgatar passagens para muitos destinos no mundo. Pronto para conhecer Barcelona?